
Não sou contra palavras estrangeiras fazerem parte da língua portuguesa. Defendo a incorporação delas ao português, veementemente. Mas percebo que às vezes há abusos abusadíssimos.
Um desses abusos, por exemplo, é batizar um prosaico chá produzido no Brasil de Green Tea Spree, que literalmente significa Bebedeira ou Farra de Chá Verde, de green (verde), tea (chá), spree (bebedeira, farra).
Outro abuso é ver um brasileiro que não fala inglês ser ridicularizado ou humilhado porque não sabe pronunciar Green Tea Spree de acordo com a fonética inglesa. Tempos atrás, num supermercado, uma garotinha de cinco a seis anos leu Green Tea Spree, como se fosse uma palavra portuguesa /gre-en-te-a-es-pre-é/. Elogiei a garota que já mostrava forte indício de estar alfabetizada. E não fiz correção alguma quanto à pronúncia inglesa das palavras. Ela saiu satisfeita. Muitos brasileiros adultos leem palavras estrangeiras tal qual a garotinha fez.
Por falar em adultos, muitos deles passam constrangimentos nas lojas de eletroeletrônicos. Muitos brasileiros ficam envergonhados na hora de falar, por exemplo, Home Theater. Eles falam baixinho e rapidamente rometite. E quando o vendedor malvado pede para repetir, o segundo rometite fica quase inaudível, pois a timidez do cliente aumenta. Esses brasileiros tímidos esquecem, porém, que os estrangeiros também têm dificuldades de falar palavras de outros idiomas com perfeição.
Se você pensar um pouco mais, verá que os brasileiros não são obrigados a ler ou falar palavras inglesas conforme são lidas em países anglofalantes, como Inglaterra, África do Sul ou Austrália. Mas há sempre um sem-noção ou afetado que diz “sua pronúncia está errada” ou “seu th não foi dito corretamente.”
Na minha opinião, não é a pronúncia que está errada. São a propaganda e o nome do produto que não estão adaptados a realidade local.
A pronúncia correta deve ser dada para quem está interessado em aprender a língua estrangeira. Não me interessa no momento saber como pronunciar corretamente o “bom dia” em javanês, tailandês ou francês. Portanto, se eu falar bon jour ou croissant de forma errada, não venha me corrigir ou humilhar perante outros.
Alguns podem pensar que sou xenófobo ou insano nacionalista. Não sou. Acho que vocábulos exóticos que enriquecem a língua são muitíssimos bem-vindos. Na verdade, se você estudar etimologia, verá que a língua portuguesa é riquíssima de palavras de outros idiomas. Possui, por exemplo, palavras gregas (democracia, silogismo, conjuntivite). Contém termos latinos (república, auricular, ultimato). Abriga vocábulos franceses (abajour, baton). Agasalha palavras inglesas (Ok, jazz). Conta com termos indígenas (carioca, Itamaracá). Deita-se com vocábulos africanos (olodum, axé); Pactua com palavras japonesas (camicase, origami). Alinha-se com termos árabes (algarismo, alfazema). E irmana-se com palavras italianas (pizza, máfia).
Contudo, tal qual casamento, depois que se amalgama a língua portuguesa e o termo estrangeiro, este deve ser usado e valorizado sempre, a fim de se obter uma estabilidade ou homogeneidade da língua lusitana por gerações. Não é possível para uma nação se desenvolver trocando seu vocabulário a cada nova geração. A ordem e o progresso dependem de um idioma estável e sólido. Se no século I, a língua portuguesa abrigou o termo verde de procedência latina; e adotou, entre o século XVI e XVII, o termo chá de origem mandarim, sejamos defensores, sejamos paladinos dessas adoções. Respeitemos a história e as escolhas de nossos antepassados. Não sejamos levianos. Evitemos os estrangeirismos.
Para quem não lembra, estrangeirismo é “palavra ou expressão estrangeira usada num texto em vernáculo, tomada como tal e não incorporada ao léxico da língua receptora”. (Fonte: Dic. Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, 2001). Em outras palavras, estrangeirismos são palavras exóticas que não foram incorporadas a um determinado idioma.
Se temos palavras que já têm história em nossa língua, não é necessário adotar palavras equivalentes vindas de outros idiomas. Adotemos termos exóticos quando não encontrarmos vocábulo solidificado em língua portuguesa ou quando não tenhamos mais nenhum cidadão “guimarãesrrosiano” capaz de cunhar neologismos na comunidade lusofônica. O termo estrangeiro será sempre bem-vindo quando ampliar nosso conhecimento ou quando trouxer novidades a respeito do mundo e de nós.
Quanto aos nomes das multinacionais e de seus produtos, acredito que devem ser mantidos conforme a origem – Nestlé, Le Coq, Nike, Avon, Fila, Volkswagen, Toshiba, Suzuki, etc. Ficaria estranho, por exemplo, ver empresas brasileiras sediadas no exterior, tais como Petrobras, Embraer, Havaianas, Azaléia, Vale, Banco do Brasil, Itaú, Sadia, Odebrecht, Natura, etc. terem seus nomes trocados, para se adaptarem a um local, temporariamente. Quando a Antártica, por meio da AmBev, comprou a fábrica da cerveja Budweiser, ela não mudou o nome tradicional da cerveja americana. Se fizesse isso, perderia milhares de dólares dos clientes acostumados a essa marca nos Estados Unidos e no mundo.
A tempo: Iniciei o título deste artigo com Chá Verde Green Tea. Com isso, cometi erro de redundância porque Chá Verde Green Tea é traduzido como Chá Verde Chá Verde para o português. O erro, porém, jogo em cima de quem adotou o estrangeirismo tea. Como cidadão brasileiro, não sou obrigado a saber que green é verde e que tea é chá. Sou?
Aumente seu conhecimento: Já que leu a respeito do Chá Verde Green Tea Spree, sugerimos que aprenda curiosidades a respeito do Adoçante Finn
É isso. Aguardamos seu comentário a respeito deste artigo.
















