Na chamada Bôer War (Guerra dos Bôeres), o império britânico derrotou os holandeses na África do Sul e fez com que as repúblicas do Transvaal e o Estado Livre de Orange virassem colônias da Coroa, embora com governos próprios. (Mais tarde estas colônias se uniram às de Cape Province e Natal para formar a República da África do Sul, hoje um país independente).

Muitos anos se passaram em que a convivência entre vitoriosos e derrotados foi mais ou menos pacífica, mas era apenas uma questão de tempo para que a velha animosidade voltasse à tona de forma inesperada. E, desta vez, os próprios idiomas tornaram-se o estopim do novo conflito.

O inglês e o idioma derivado do holandês, o africâner (afrikaans), viraram, literalmente, símbolo e bandeira dos campos inimigos quando, no dia 16 de junho de 1976, ocorreu uma explosão de protestos nas ruas de Soweto, um complexo urbano nos arredores de Johannesburg, cuja população é predominantemente negra. Ali, os manifestantes deixaram bem clara a importância da língua inglesa na África do Sul, fazendo com que Soweto ganhasse manchetes internacionais. Os estudantes saíram às ruas empunhando placas clamando “Fora, Afrikaans”, e “Nós Não Somos Bôeres”, dando início aos protestos que começaram a pipocar por todo o país. A repressão policial à passeata foi violenta e ficou conhecida como o Massacre de Soweto, com dezenas de mortos e feridos.

línguas inglesas, do not want afrikaans, to hell with afrikaans, soweto

Estudantes negros sul-africanos protestando
contra o decreto da língua Afrikaans.

massacre de soweto, 1976, hector pieterson taken by sam nzima

Hector Pieterson morreu aos 13 anos, quando a polícia abriu fogo
contra os estudantes no Massacre de Soweto.

Para um observador menos atento não dava para entender a ira contra o idioma afrikaans, nem por que tanto empenho a favor do inglês. Afinal, a língua inglesa não é a mais falada no país – é apenas mais uma entre as 11 línguas oficiais da África do Sul – e é a língua-mãe de apenas 10% de uma população estimada em 49 milhões. A maioria dos negros fala uma das outras línguas oficiais, principalmente línguas banto, como xhosa, sesotho ou zulu. Então cabe a pergunta: “Por que toda a comoção em Soweto só porque o governo afrikaner decretou que nas escolas o inglês e outros nativos seriam substituídos pelo afrikaans?”

Naquele dia de junho, ficava claro o papel simbólico que os idiomas ocupam na sociedade sul-africana. Para os afrikaners, o inglês sempre foi, e continua sendo, uma língua estrangeira a que eles dão o nome de die vyand se taal (a língua do inimigo). Por sua vez, a população negra vê a língua afrikaans como o símbolo do opressor. Para os negros de Soweto, o decreto era a imposição de um símbolo odiado e uma tentativa de negar a todos os negros as oportunidades que a língua inglesa podia trazer, inclusive a de ganhar plateias internacionais para expor os seus problemas.

A realidade política que os negros desafiavam naquele instante pode ser descrita em uma palavra: apartheid, o sistema de segregação praticado na África do Sul. Os ingleses, por sua vez, há muito não tinham dúvidas sobre o papel a ser desempenhado pelo seu idioma: ele deveria ser o idioma da oposição, especialmente a partir de 1948, quando o governo afrikaner estabeleceu oficialmente a política de apartheid, e mais tarde, em 1961, quando a África do Sul se desligou da Comunidade Britânica.

Deixando de lado os aspectos políticos, pergunta-se: “Afinal, como é o inglês na África do Sul?” Novamente vamos encontrar suas origens na região industrial de Midlands, na Inglaterra, de onde vieram os primeiros colonos ingleses. Aquela região sempre foi uma generosa fonte de emigrantes. Foi também dali que muitos saíram para a Austrália e Nova Zelândia, o que explica a semelhança nos sotaques dos três países. No entanto, existem algumas diferenças entre eles, não tanto quanto à pronúncia, mas mais quanto ao vocabulário. Quando os imigrantes chegaram à Austrália e Nova Zelândia, encontraram uma natureza exuberante e um povo pacífico com quem conviviam à distância. A experiência dos ingleses na África do Sul foi bastante diferente. Ali já havia uma sociedade europeia consolidada, com características próprias, inclusive o idioma. Nessa sociedade, os recém-chegados ingleses eram, como são os seus descendentes, uma pequena minoria, o que explica o inglês por vezes salpicado com toques de afrikaans e até de línguas nativas como nguni e khoi. De resto, o inglês sul-africano mantém-se relativamente perto do standard English de sempre, tentando seguir uma pronúncia parecida com a Received Pronunciation (RP) da Inglaterra.

Mas há uma clara distinção entre o inglês sul-africano e o dialeto chamado afrikaans-English. Este é usado como segunda língua com uma forte influência do afrikaans, o que por vezes dificulta a conversação, devido à pronúncia e ao vocabulário. Com frequência, o afrikaans-English é simplesmente uma mistura coloquial dos dois idiomas, em que são usadas muitas expressões diretamente traduzidas do afrikaans. É justamente por isso que o afrikaans-English é conhecido como anglikaans.

Na Índia também ocorrem mutações que já adquiriram nome próprio, como veremos no próximo artigo. (Contato com o autor: John D. Godinho – jdg161@gmail.com)

capa do livro once upon a time um inglês do autor john d. godinho

O texto acima faz parte do livro Once Upon a Time um Inglês… A história, os truques e os tiques do idioma mais falado do planeta escrito por John D. Godinho. Adquira essa obra nos seguintes endereços:
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Leia também:
Línguas Inglesas – O Neozelandês
Línguas Inglesas – As Variações do Queen’s English
Línguas Inglesas – Inglês Australiano, a Colônia Penal

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