No passado, o exagero no uso de palavrões e blasfêmias provocou ataques de pudor tão fortes que o parlamento britânico viu-se na obrigação de promulgar leis proibindo a prática. Primeiro, através de um Ato do Parlamento de 1623 que terminantemente proibia o uso de palavrões e expressões blasfemas. Mais tarde, em 1649, as leis ficaram mais severas ainda: o filho que xingasse um dos pais com expressões daquele tipo estava sujeito a ser sentenciado à morte. A onda de pudor atingiu o auge no século XIX, coincidindo com o reinado da rainha Victória (1837-1901) que acabou levando a fama de ter implantado uma série de regras e atitudes que já existiam quando ela subiu ao trono.

Na realidade, muito antes da rainha Victória nascer, o lexicógrafo Samuel Johnson já tinha passado pelo processo de autocensura compulsória que o levou a excluir de seu dicionário, muito contra seu gosto, todas as palavras tidas como indecentes. Conta-se a história de que quando Samuel Johnson foi parabenizado por uma senhora da sociedade por ter deixado de fora os palavrões, ela ficou arrasada com o comentário do escritor: “Então, quer dizer que a senhora andou procurando por eles, não é mesmo?!”

Até recentemente, ainda existiam resquícios desses conceitos de moralidade. O Oxford English Dictionary, publicado em 1928, não mencionava nenhuma das famosas palavras de quatro letras, embora seu ambicioso projeto fosse o de cobrir todos os vocábulos da língua inglesa. Em 1972, rejeitando o falso pudor e hipocrisia do passado, os editores resolveram ser mais realistas e começaram a incluir palavrões nos suplementos do dicionário. Afinal, elas são parte integral do idioma. E como são!

Mas nem todo mundo tem esses ataques de sensatez. O famoso Hollywood Rating Code (Código da Indústria Cinematográfica) contém uma lista de palavras cuja menção quase que automaticamente resulta numa classificação de R (restricted), que proíbe a entrada de menores, geralmente com menos de 17 anos, para ver determinados filmes a não ser quando acompanhados de um dos pais ou outra pessoa responsável. Supostamente o código continua em vigor, mas já morreu e não sabe. Hollywood está numa procura constante por algo que movimente a bilheteria e não vai permitir que um R qualquer atrapalhe a vida de um bom $. E aí toma filme-catástrofe, toma efeitos especiais mirabolantes, toma violência física e verbal, e, para intensificar a sensação de choque, toma fuck this para cá, fuck that para lá, cunt, shit, cock etc., entre cada duas palavras em diálogos medíocres que não passam de bullshit (literalmente, merda de touro, mas, na realidade, treta, babaquice, lero-lero, trololó). O mais engraçado é ver todos esses palavrões cabeludos traduzidos na TV e no cinema como droga, porcaria, e outras expressões recatadas, como se na vida real tanto o brasileiro quanto o português não tivessem ao seu dispor um vastíssimo arsenal de palavrões.

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Definição de fuck no Cambridge Dictionary

A carga emocional que se dá a determinadas palavras pode ser profundamente alterada de época para época. Nos tempos do poeta Geoffrey Chaucer, a palavra cunt (boceta ou buceta) era usada com a maior despreocupação tanto que surge naturalmente várias vezes em sua obra-prima Contos de Canterbury. Shit era socialmente aceitável nas primeiras décadas do século XIX e a palavra prick era normalíssima no século XVIII. Hoje, claro, são consideradas tabus.

No entanto, algo está acontecendo com o palavrão. Embora Hollywood esteja quase que delirando com o seu uso, o que nem sempre reflete o comportamento real do cidadão comum, o fato é que as conversas estão ficando cada vez mais picantes. O uso de palavrões entre homens, no serviço militar, em esportes etc., sempre foi a regra. Mas hoje nota-se que seu uso é bem mais comum entre as mulheres, o que leva os homens a sentir-se mais à vontade no seu palavreado em grupos mistos.

No próximo artigo, veremos como o inglês, seja o formal ou o proibido, observa algumas regras que adquiriu ao longo dos séculos e que, em termos gerais, lhe dão um verniz de sanidade. (Contato com o autor: John D. Godinho – jdg161@gmail.com)

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