As raízes da língua inglesa na Índia tornaram-se mais fortes quando o historiador britânico Thomas Macauley propôs a criação de uma “… classe que servisse de intérprete entre nós e os milhões por nós governados; uma classe de pessoas indianas no sangue e na cor, mas inglesas no gosto, nas opiniões, na moralidade e no intelecto” [McCrum em The Story of English, 1993, p. 319]. A proposta foi feita em 1835 e aceita pelos governos locais e pelas elites, tornando o inglês a língua oficial do governo, do ensino, e da cultura em geral, ao mesmo tempo símbolo do poder imperial e arauto do progresso.

Rapidamente surgiram universidades de língua inglesa em Madras, Calcutá e Bombaim fazendo do inglês o idioma de maior prestígio e utilidade. Quando o movimento nacionalista surgiu, décadas depois, seu idioma não era o hindi ou qualquer outro dos muitos falados na Índia – era o inglês.

O processo de adaptação do idioma à sociedade indiana deu origem a variações que vão do inglês padrão ao mais chinfrim. Alguns estudiosos menos sensíveis deram nomes a essas variedades de inglês, às vezes com tom pejorativo, teoricamente em função da ocupação das pessoas que as falam: Babu English (o inglês servil dos burocratas e oficiais, que poderíamos caracterizar como, em linguagem mais popular, “o inglês puxa-saco”), Butler English (inglês de mordomo), Bearer English (inglês de carregador) e Kitchen English (inglês de cozinha).

Só que muitos desses comentaristas não repararam, ou fingiram não reparar, que a linguagem dos mordomos, carregadores e pessoal de cozinha, era também a linguagem usada pelos patrões e mestres ingleses para se comunicarem com seus empregados e serviçais. Quer dizer, estava ocorrendo um processo de contaminação mútua que dava a essa linguagem várias características típicas do inglês indiano: muitas vezes a estrutura, o uso de imagens e palavras arcaicas deixa bem claro que o inglês é uma tradução de outra língua que permanece oculta; ou então o idioma oculto se trai e insere alguns de seus vocábulos entre as palavras inglesas.

Outra característica é o uso de duas ou mais palavras inglesas para descrever algo que já tem nome próprio em inglês padrão. Por exemplo, liquidificador é food blender em inglês comum, mas em inglês indiano é mixy-grinder, uma combinação de mixer (misturador) com grinder (moedor). No fundo, o que se observa é o processo pelo qual as línguas da Índia estão modificando a língua invasora.

A Índia tornou-se independente em 1950. De acordo, com a nova constituição, o inglês continuaria como principal idioma durante o período de transição até 1965, mas, a partir daquele ano, seria apenas mais uma das 14 línguas oficiais – o hindi seria a primeira língua do país. Mas foi precisamente nesse período pós-Segunda Guerra Mundial que o inglês se tornou mais importante em todos os ramos da atividade humana – abandoná-lo nessas circunstâncias não seria aconselhável. Em maio de 1963, ocorreram vários protestos violentos a favor do hindi, mas o parlamento indiano, obrigado a encarar a realidade, optou mais uma vez pela continuação do inglês como primeira língua oficial da união, juntamente com o hindi.

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Governo Indiano preserva inglês como idioma oficial
até o Hindi ser aceito pelos estados opositores.

Situações parecidas ocorrem em países vizinhos da Índia, como Paquistão, Bangladesh, Sri Lanka e até em outros bem mais distantes, como no chamado Pacific Rim (Orla do Pacífico), como veremos no próximo artigo. (Contato com o autor: John D. Godinho – jdg161@gmail.com)

capa do livro once upon a time um inglês do autor john d. godinho

O texto acima faz parte do livro Once Upon a Time um Inglês… A história, os truques e os tiques do idioma mais falado do planeta escrito por John D. Godinho. Adquira essa obra nos seguintes endereços:
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