Os primeiros emigrantes na Austrália não pareciam ser as pessoas mais indicadas para desbravar um território e fundar um país. Quando a pequena frota do Capitão Arthur Phillip zarpou de Portsmouth em maio de 1787, nela viajavam 759 prisioneiros (568 homens, 191 mulheres); 13 crianças, filhos dos presos; 211 fuzileiros e oficiais para supervisionar os presos; 46 esposas e filhos dos fuzileiros; o governador e nove assistentes. Ao aportar na Baía de Botany, o capitão logo concluiu que o lugar não era adequado e prosseguiu viagem. Um pouco mais ao norte encontrou um local que considerou perfeito e que veio a ser chamado de Sydney. (Até 1868, a Austrália recebeu um total de 158.829 presos).

inglês australiano, admiral arthur phillip portrait by francis wheatley

Capitão Arthur Phillip

Em menos de dez anos após o desembarque, já se notava um forte inglês pidgin resultante do intercâmbio entre os colonos e os aborígines. As críticas não tardaram – alguns britânicos logo começaram a tachar o novo linguajar como “coisa digna de bárbaros”. Para o desânimo dos críticos, a influência do vocabulário aborígine tornou-se uma das características do inglês australiano, embora o número de palavras nativas adotadas seja relativamente pequeno. Certamente você já deve ter ouvido a famosa canção Waltzing Matilda (ouça aqui), frequentemente usada como se fosse o hino não oficial da Austrália. Ela contém vários termos aborígines.

Muitas outras características do inglês australiano são o resultado daquele processo peculiar de colonização, já que os primeiros colonos eram, na sua maioria, pequenos criminosos e contraventores. É por isso que o inglês australiano é considerado por muitos como um museu vivo – muitas palavras e expressões dos séculos XVIII e XIX são mantidas com todo o vigor, deixando clara a sua origem: Cornualha, Wessex, East Anglia, Irlanda, Escócia e outras localidades nas ilhas Britânicas. Duas gerações após a chegada do Capitão Phillip com a primeira leva de condenados, a população australiana ainda era composta de 87% de detentos, ex-detentos ou seus descendentes.

A história do idioma se repetia. O que tinha acontecido com o inglês dos colonos americanos, acontecia com os novos australianos, a começar pelo nivelamento dos muitos sotaques presentes nas longas viagens. Obrigadas a conviver nos porões dos navios-prisões, as características mais marcantes do irlandês, do cockney, e de outras variedades do idioma, começavam a se diluir e a formar um inglês mais aceitável a todos.

O processo se consolidou dentro de relativamente pouco tempo, à medida que os filhos dos imigrantes foram perdendo o sotaque dos pais, qualquer que tenha sido. O que é bastante surpreendente é a uniformidade do inglês australiano. Para um país extenso, quase do tamanho da Europa, a existência de sotaques regionais é insignificante, embora linguistas já tenham identificado três variações do idioma. Porém, elas não são consideradas sotaques regionais porque ocorrem igualmente em todas as regiões do país. Cerca de um terço da população fala o chamado Broad Australian (australiano rústico), enquanto mais da metade fala o General Australian (Australiano comum) e o restante fala Cultivated Australian (Australiano culto), mais próximo do inglês britânico. No país vizinho, a Nova Zelândia, o processo foi diferente, como veremos em artigos próximos. (Contato com o autor: John D. Godinho – jdg161@gmail.com)

capa do livro once upon a time um inglês do autor john d. godinho

O texto acima faz parte do livro Once Upon a Time um Inglês… A história, os truques e os tiques do idioma mais falado do planeta escrito por John D. Godinho. Adquira essa obra nos seguintes endereços:
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Línguas Inglesas – As Variações do Queen’s English
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